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A grande farsa da lua, de 1835

Convenhamos, as pessoas acreditam em muitas histórias farsantes. Desde sereias, pé-grande ou tráfico de humanos escondidos em pizzarias de fachada. É ainda pior quando a fonte da farsa vem de um jornal de grande circulação. Esse foi o caso em agosto de 1835 quando o jornal New York Sun publicou uma noticia fantasiosa que dizia que na lua existiam cidades, rios e até homens morcegos.

Uma grande história farsante precisa ter elementos que contenham ao menos um ponto de verdade, e a primeira coisa que o artigo do jornal fez foi criar credibilidade linkando a história a Sir John Herschel.

Herschel, além de astrônomo, químico, matemático, ele também era botânico e fotógrafo. Ahh, ele também melhorou o processo fotográfico e inventou o que nós conhecemos hoje como “plantas”. Mas ele não fazia a menor ideia de que seu nome ia ser jogado numa das maiores farsas já contadas até hoje.

O artigo de seis parágrafos, continha a narrativa de que na lua existiam espécies similares ao homem. O artigo descrevia criaturas com aparências humanas mas com asas de morcego que tinham nomes científicos: Vespertilio-homo. A habilidade de identificar com tamanha precisão vinha de um suposto novo telescópio que Herschel havia construído e que mostravam um estranho mundo sobre nossas cabeças.

O impacto foi imediato. Os rumores se espalharam e as vendas do jornal cresceram. O mercado estava em êxtase.

Mas é claro, era uma farsa.

Richard Adams Locke, o autor do artigo, tinha dois objetivos. 1, vender mais jornais. 2, satirizar o fato de que muitos cientistas estavam apresentado evidências do sistema solar sem apresentar, de fato, uma prova. A medida que a notícia se espalhava, algumas pessoas acreditavam, outras não. Quando várias semanas depois, a farsa foi desfeita, o jornal ou o autor jamais imprimiram uma retratação.

Sir Herschel achou engraçada a história no início, mas eventualmente se cansou de ter que responder sempre sobre a mesma coisa. Outra pessoa que ficou bastante incomodada foi Edgar Alan Poe. Isso porque Poe havia escrito um conto que era bem similar ao artigo publicado. Acusou de plágio.

O conto de Poe era para ser uma, vejam só, farsa. Era para ter sido publicado em várias partes mas o artigo do New York Sun fez com que Poe descontinuasse a história. Tanto a história original de Poe, como o artigo de Locke, serviram como inspiração para outro escritor famoso. Jules Vernes. As duas são mencionadas no livro From the earth to the moon” (Da terra para a lua, em português), de 1865.

Se olharmos para trás, é estranho ver que um escritor mancharia a reputação de seu jornal para vender mais cópias. No caso de Locke e o New York Sun, a aposta deu certo. Você até poderia dizer que é mais estranho ainda as pessoas acreditarem no artigo, mas a história nos mostra que as pessoas estão dispostas a acreditar, mesmo com a falta de evidências.

É curioso pensar que 1835 não está tão distante das nossas farsas de hoje.


Texto original de Troy Brownfield.

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